Retratos sem qualquer retoque

 

1. O retrato (politicamente incorreto?) de D. Sebastião

Há poses do corpo que falam pelos cotovelos. Prefigurativa lição o retrato

que Cristóvão de Morais traçou em 1571 de el-Rei D. Sebastião, tendo o dito, na ocasião, dezessete anos. Ora, pois, pronto: está na cara tratar-se de um enfant gâté.

           

            Veja-se-lhe o olhar enviesado e arrogante de criança estragada pela criação da avó (Catarina de Áustria, então viúva de D. João III) e do tio-avô (o cardeal D. Henrique, que, exemplo do nepotismo por nós herdado, ainda acumulava o cargo de Inquisidor-Mor, à cata de bruxas, judeus e pecados, cala-te boca!,  nefandos).

           A fantasia de guerreiro não passa de fantasia, já que não lhe disfarça a feminilidade ínsita: peco fruto de casamentos consanguíneos da realeza, conforme ensina o Dr. Júlio Dantas, em Outros Tempos (segunda edição de 1916). Ei-la, essa herança da consaguinidade, visível no amuo da boquita pintada a carmesim,

         

na mão esquerda flácida ao cabo da espada feminilmente filigranada, na pose da mãozinha direita (mindinho levemente alçado) descansada à cintura prenunciando requebro de varina.

           

A armadura (?!)

           

uma graça de haute-couture quinhentista, adelgaçando-lhe a cintura para realçar o balonado dos calções. Irrefreável vocação para ser O Desejado, um modelito concebido  para conquistar com seu sex-appeal os borralhos sarracenos na sonhada conquista marroquina.

            Só o galgo (prefigurativa metempsicose do Dr. Júlio Dantas?),

             

com a fidelidade atenta e triste de seu olhar, parece farejar, na figura de entrudo desse  rei, o falhanço que fez Portugal, esse conquistador do Mar-Oceano, naufragar nas areias de Alcácer-Quibir.

           

 

            2. O retrato do Sucesso

            No Museu Nacional de Soares dos Reis (Porto, PT) damos de cara com esse retrato

           

intitulado Esperando o Sucesso.


            Na ausência do pintor, no tubo de tinta esmagado no chão, no abandono dos pincéis e paleta, na tela por pintar a um canto

 

    

--- sinais prefigurativos de que seu autor, Henrique Pousão


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(* Vila Viçosa, 01/1/1859 - Vila Viçosa, 20/3/1884), falecido aos 25 anos não teve tempo de esperar o Sucesso.

            Metonímica homenagem póstuma, dele só lembramos como quadro na parede.

           


            Verdadeira lição do Sucesso nas Artes me parece o quadro de Henrique Pousão.

Maroto galhofeiro, ei-lo, o Sucesso.

Que irônico aponta um papelinho que figura o tamanho e imagem de nosso talento artístico.

            Sentado --- é assim que se espera, nas Artes, a incerta visita do Sucesso.